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Dispersões, Delírios e Divagações

Um blog de Fabiano Camilo

Ser selvagem

The hunter, fotografia de Simon Pais-Thomas

.

Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.
Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei
se me falta escrúpulo espiritual, ponto-de-apoio na inteligência,
consangüinidade com o mistério das coisas, choque
aos contatos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos,
ou se há outra significação para isto mais cômoda e feliz.

Seja o que for, era melhor não ter nascido,
porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
a vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
a dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,
e ir ser selvagem para a morte, entre árvores e esquecimentos,
entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs.

Fernando Pessoa, Passagem das horas.