Aproximemos dois discursos veiculados em jornais de duas sociedades culturalmente muito diferentes e espacialmente distantes. No Brasil, no dia 3 de setembro, o Fórum Permanente Pernambucano Pró Vida (FPP-PV), que reúne “diversas entidades que defendem a vida e a família cristã”, publicou, no jornal Folha de Pernambuco, o anúncio de uma campanha intitulada “Pernambuco não te quer”. Entre as práticas consideradas intoleráveis no estado estavam a pedofilia, a exploração sexual de menores, a prostituição, o turismo sexual e o homossexualismo. No Irã, o jornal Mashregh News, veículo oficial da Guarda Revolucionária Iraniana, publicou um artigo em que acusava o governo sionista de Israel de espalhar a homossexualidade pelo mundo. A campanha brasileira é promovida por uma instituição religiosa cristã. O artigo iraniano apresenta a opinião de um órgão de um Estado teocrático islâmico. Nas duas situações, nos deparamos com uma homofobia de conteúdo religioso. Todavia, há um segundo elemento em comum, menos evidente e mais relevante.
A campanha e o artigo são ridículos, risíveis. Entretanto, não são poucos aqueles que os consideram verdadeiros – no Irã, provavelmente a quase totalidade da população. De acordo com o presidente do Fórum Pró Vida, o homossexualismo produz turismo sexual. Para o Mashregh News, Israel produz homossexuais. O que se manifesta nesses discursos é o medo da proliferação incontrolada da diferença poluidora, da disseminação contaminadora. Gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais podem ser pessoas que padecem de uma doença, mas, concomitantemente, são os agentes transmissores da doença ou, talvez, a própria doença, que se não for, se não curada, ao menos controlada, se espalhará infectando todo o corpo social. A repulsa e o medo em face das homossexualidades, das bissexualidades e das transgeneridades não consistem tão-somente em reações fóbicas à diferença, mas também em reações angustiadas à sensação, não necessariamente evidente para quem a experimenta, de que a diferença pode conspurcar o eu e degenerar a coletividade. Seja mediante a conversão religiosa ou a cura terapêutica, no Brasil, seja mediante castigos físicos ou a pena de morte, no Irã, o objetivo da reação é sempre o mesmo: exterminar o mal.
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