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Dispersões, Delírios e Divagações

Um blog de Fabiano Camilo

19/03/2013
by Fabiano Camilo
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A homogeneidade da História contra a heterogeneidade do tempo

Dos cristãos primevos a Fukuyama, passando por Marx, toda filosofia da História – ‘História’, com agá devidamente maiúsculo, não ‘história’ –, toda narrativa dos fins e do fim da humanidade, parece-me sempre um combate virtuoso – mas, inevitavelmente, fadado ao fracasso – da homogeneidade da História contra a heterogeneidade do tempo – do tempo passado, presente e futuro–, um combate da verdade da civilização contra o erro da barbárie, um esforço para subjugar e extinguir todas as alteridades, ou seja, todas as formas de vida outras, que existem mas não podem e, sobretudo, não devem continuar existindo no tempo qualificado como histórico, um combate que, ao final, reduz toda a diversidade das formas de vida ao idêntico, ao uno, mediante a operação de uma retórica que justifica, como razão e inevitabilidade da História, toda a violência imanente aos acontecimentos que, inexoravelmente, devem conduzir ao fim determinado, historicamente, como o único possível, fim unívoco e redentor.

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02/03/2013
by Fabiano Camilo
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Gabriel Chalita e a astúcia da razão homofóbica

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Capa da edição n. 2.311 de Veja

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Merece atenção a capa de Veja desta semana, não pela principal matéria de capa, mas pela pequena foto do topo direito, indiciária da homofobia como tática de desmoralização política. De 2003 a 2007, o deputado federal Gabriel Chalita (PDMB) ocupou o cargo de secretário estadual de Educação do Estado de São Paulo, durante os governos de Geraldo Alckmin e de Cláudio Lembo. Atualmente, ele está sendo investigado em onze inquéritos em curso no Ministério Público do Estado de São Paulo, relativos ao período de sua gestão na Secretaria de Educação. Dúvida: qual a relação entre a manchete – “O escândalo que encurtou a carreira do político carismático que poderia ter sido ministro” – e a foto que a ilustra, na capa da revista semanal? Nenhuma, absolutamente nenhuma. Há muito tempo – desde sempre, talvez – circulam insinuações acerca da (homos)sexualidade de Chalita, sobretudo nas redes sociais, não raro acompanhadas da sugestão de existência de um envolvimento amoroso entre ele e o padre celebridade Fábio de Mello. A mídia, não apenas a corporativa, adota como prática recorrente um pacto de silêncio em relação à orientação sexual de alguns indivíduos famosos, consoante seus interesses políticos, econômicos e corporativos. Um silêncio não motivado, ao contrário do que se sustenta, por respeito à intimidade, à “imagem” e à  “honra”. A mídia jamais silencia a sexualidade hetero-orientada de ninguém; no máximo, oculta informações acerca de eventuais envolvimentos sexuais e amorosos que poderiam, de sua perspectiva, prejudicar personalidades que tem interesse em proteger e favorecer. Entre inúmeras fotos de Chalita que poderiam ser escolhidas para ilustrar a manchete, por que a escolha recaiu justamente em uma foto em que ele aparece descontraído, sorridente e sem camisa, ao lado de um homem também sem camisa, jovem, de compleição atlética e bronzeado, com o mar e o céu azuis ao fundo? Chalita possivelmente se tornou uma carta fora do baralho do jogo político, foi descartado, convindo à parcela da mídia, neste momento, desvincular-se de sua imagem, demonstrando toda sua imparcialidade jornalística, ao não ocultar nada. O que antes era convenientemente silenciado agora é convenientemente enunciado, exposto e explorado como tática de evidenciamento do compromisso da revista semanal com a verdade. Conquanto a verdade seja revelada tão-somente de forma (covardemente) insinuada, para se evitar um possível processo, a foto enuncia tudo e nenhum bom entendedor terá dúvida alguma:  “Veado!”,  “Corrupto e veado!”,  “Veado corrupto!”.

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18/02/2013
by Fabiano Camilo
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Sobre Marina Silva – nem com nem contra

Um amigo que votou em Marina Silva nas últimas eleições presidenciais me confessou que, a despeito da admiração, sente dificuldades para continuar apoiando-a. Tenho pensado muito nas palavras dele nos últimos dias, em decorrência do partido político criado por iniciativa da ex-ministra do Meio Ambiente dos governos Lula. A intensidade da atração exercida por Marina me parece ser tão intensa quanto a rejeição que provoca. Tive o privilégio, privilégio porque foi uma experiência bela, de ouvi-la falando publicamente, anos atrás, na época em que exercia seu primeiro mandato como congressista. Marina não era tão famosa no Brasil. Lembro-me de que a amiga que estava sentada a meu lado me perguntou quem era ela. Socioambientalista brasileira de renome mundial, natural do Acre, foi amiga e companheira de luta de Chico Mendes, atualmente é senadora pelo Partido dos Trabalhadores  – respondi. Era uma noite de 1999, no Museu da Imprensa Nacional, em Brasília. Nos anos que se seguiram, acompanhei com admiração sua atuação política, mas votei em Dilma Rousseff no primeiro turno das eleições presidenciais. Não me arrependo da minha escolha, simplesmente porque foi uma escolha que fiz com convicção. Contudo, a convicção não elude a possibilidade de mau julgamento, de equívoco. Não pretendo votar novamente em Dilma, para qualquer cargo eletivo. Teria preferido votar em Marina? Acho que Marina estaria, na condição de chefe do Poder Executivo Federal, exercendo uma atuação superior à de Dilma? Sou bacharel em história, não preciso que ninguém – didaticamente e, talvez, sarcasticamente – me explique que não posso asseverar o que teria acontecido se. Não me empenho em dispender meu tempo em exercícios vãos. No entanto, tenho a impressão de que estaria satisfeito com um governo de Marina, quando não demonstro satisfação nenhuma em relação ao governo de Dilma. Não tenho intenção de tentar expor meus motivos, tampouco de convencer alguém, simplesmente porque se trata tão-somente de uma impressão. Acredito que ao menos algumas importantes transformações socioeconômicas talvez pudéssemos estar vivenciando, transformações que, evidentemente, não vivenciamos e não vivenciaremos em nenhum governo de um presidente eleito pelo PT. A impressão nasce de um sentimento de empatia por, de uma identificação com, de uma confiança em Marina, que não pretende racionalizar. Por mais racionais que tentemos ser, subsiste um âmago de irracionalidade na ação política. Somos movidos também por um patos político. Sem paixão, jamais haverá revolução. Não pretendo votar novamente em Dilma e, provavelmente, não votarei em Marina caso ela torne a se candidatar à Presidência da República. Interessa-me sua agenda socioambiental, da qual decorreu, no decurso das últimas três décadas, uma relevante atuação nos combates socioambientais, iniciada quando, para muitos de nós, incluo-me neste nós, a questão ecológica se reduzia ao espetáculo midiático da preservação do mico-leão dourado. Tenho muitos amigos que votaram em Marina para presidenta – o amigo referido no início do escrevinhamento é apenas um deles. Tenho amigos que estão engajados no processo de construção do partido de Marina. São todos pessoas que admiro intelectualmente. Não consigo acompanhá-los, contudo. Se a agenda socioambiental de Marina me interessa, a influência de seus valores religiosos sobre suas ideias políticas, suas posições ou suas tentativas de não se posicionar em relação a questões como direitos femininos e direitos glbt’s, e parcela de suas alianças religiosas e políticas não me permitem partidarizar com Marina. Não obstante, conquanto Marina não exerça sobre mim atração, não exerce também rejeição. Ela merece minha atenção. Estou convencido de que suas ideias e propostas políticas socioambientais precisam ser discutidas. No cenário onde nos encontramos, um cenário que não está se abrindo, mas um cenário que está aberto há, no mínimo, um século, o problema que enfrentamos é a própria possibilidade da continuidade de existência da vida humana no planeta que nós, animais humanos, habitamos e estamos destruindo. Marina desempenha um papel importante nos combates socioambientais. Portanto, na questão socioambiental, prefiro estar ao lado de Marina, ainda que seu posicionamento possa não me parecer suficientemente radical, e não pretendo que minhas convicções nos campos das questões anticapitalista, feminista e queer me impeçam de escutar o que ela possa ter de relevante a dizer acerca de outras formas de vida e de relação com o mundo natural. Para mim, Marina, como afirma Eduardo Viveiros de Castro, faz as pessoas pensarem, ou, se se preferir, pode nos ajudar a pensar – e urge que pensemos.

PS: comentários são sempre muito bem-vindos, mas, se você pretende comentar, tente, por gentileza, não se limitar a repetir o clichê “Marina é uma fraude”. Agradeço atenciosamente.
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11/10/2012
by Fabiano Camilo
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Dilma lança o Kit Gay

Escrevinhamento atualizado, após pequenas maravilhosas sugestões do meu amigo Pádua Fernandes.

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Em cerimônia realizada ontem no Palácio do Planalto, com a presença da presidenta Dilma Rousseff e do ministro da educação, Fernando Haddad, foi lançado o novo programa do governo federal: o Kit Gay. De acordo com o ministro, o objetivo do programa é promover a propaganda da homossexualidade, incentivando sua prática entre os adolescentes do gênero masculino, entre 14 e 17 anos. O governo espera que o sucesso na disseminação da prática entre o público-alvo do Kit Gay contribua, posteriormente, para a expansão da homossexualidade entre a população masculina de todas as faixas etárias.

O Kit Gay é composto por uma bolsa Louis Vuitton contendo 13 a 14 itens:

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100 preservativos;

5 bisnagas (100g) de K-Y gel;

10 cuecas Andrew Christian;

1 consolo (o adolescente participante do programa deverá indicar previamente o nome do seu ator pornô preferido, para receber o consolo no formato do pênis do seu ídolo);

1 iPhone;

1 vibrador da marca OhMiBod, aplicativo que, ao ser ligado a um iPhone, vibra de acordo com a música tocada (o adolescente poderá escolher o modelo de sua preferência);

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1 boneco vodu de pastor evangélico homo-bi-transfóbico (confeccionado, na avaliação de todos os jornalistas presentes, com as feições do pastor Silas Malafaia), acompanhado de um miniconsolo incrustado de pequenos cacos de vidro;

1 exemplar do livro Tom of Finland XXL;

1 exemplar do livro The gay coloring book;

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1 dvd ou 1 blu-ray do clássico filme Gay males from outer space;

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discografia completa da cantora Madonna, autografada;

obras completas de Caio Fernando Abreu;

1 bolsa academia, válida até o adolescente completar 18 anos;

1 ursinho de pelúcia em traje de couro (item exclusivo para adolescentes cubs ou chasers).

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A bolsa Louis Vuitton estará disponível em quatro modelos, todos exclusivos, desenhados pela grife por solicitação do Ministério da Educação. O adolescente poderá escolher o modelo de sua preferência.

.Os 4 modelos de bolsas Louis Vuitton do Kit Gay

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Haddad explicou que o Kit Gay é somente o primeiro de uma série de kits que o governo pretende lançar. Inicialmente, o Kit Gay será distribuído para 1 milhão de adolescentes do gênero masculino, moradores de todas as capitais do país, selecionados conforme critérios estabelecidos pelo Ministério da Educação. Serão atendidos prioritariamente adolescentes que manifestarem dúvidas em relação a sua orientação sexual e adolescentes que se declararem heterossexuais. Essa primeira fase apresentará caráter experimental e seus resultados permitirão ao governo promover possíveis correções que possam se fazer necessárias, antes do início da fase seguinte, quando deverá ser atendida toda a polução de adolescentes do gênero masculino do país. A experiência auferida com o programa será fundamental também para o lançamento dos kits posteriores: Kit Lésbico, Kit Bissexual, Kit Travesti, Kit Transexual Masculino, Kit Transexual Feminino.

Ao ser questionado se o fato de o boneco vodu ter as feições de Silas Malafaia estaria relacionado à intensa campanha que o pastor promoveu contra sua candidatura a prefeito de São Paulo, Haddad negou veementemente. Em 2012, o então ex-ministro da educação foi derrotado no segundo turno da eleição municipal pelo candidato José Serra, do PSDB, que, na semana passada, se licenciou da Prefeitura paulistana para concorrer, pela terceira vez, à Presidência da República. “Não há nenhuma semelhança discernível entre o pastor Malafaia e o boneco. Nossa intenção, desde o início, foi que o boneco não tivesse características que permitissem associá-lo a alguma personalidade religiosa, para que o adolescente pudesse projetar no brinquedo, imaginativamente, o personagem de sua predileção”, esclareceu.

Haddad foi questionado também acerca do noivado com o deputado federal Gabriel Chalita, do PMDB. Haddad e Chalita concorreram à Prefeitura de São Paulo, durante o primeiro turno da eleição de 2012. No segundo turno, o candidato derrotado do PMDB apoiou o candidato petista. Desde então, rumores sobre um envolvimento amoroso entre os dois políticos começaram a circular, aumentando à medida que eram vistos juntos em público com frequência cada vez maior. No final do ano passado, Haddad e Chalita confirmaram publicamente o namoro. Há três meses, durante um fim de semana na ilha de Caras, os dois anunciaram que estão noivos e que se casarão ao final do ano. O ex-presidente Lula e o vice-presidente da República, Michel Temer, serão os padrinhos. O casamento será celebrado na igreja evangélica inclusiva Igreja da Diversidade do Amor do Poder do Arco-Íris Divino, pelo pastor Fábio de Melo, ex-padre católico, amigo íntimo e ex-namorado de Chalita. Discreto, Haddad se absteve de responder a perguntas sobre seu relacionamento com Chalita, durante a cerimônia do Kit Gay.

Chalita e Haddad, nos estúdios da rede Record,
em 2012,
durante debate entre os candidatos à
Prefeitura de São Paulo
, quando iniciaram seu romance

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Em seu pronunciamento, a presidenta afirmou que o governo espera que a prática da heterossexualidade seja erradicada de todo o território nacional,  no prazo de uma década. Em seguida, apresentou dados de estudos realizados nos últimos 20 anos, que comprovam que a heterossexualidade acarreta, anualmente, graves problemas sociais e elevados prejuízos econômicos para o país. Para Dilma, com o Kit Gay, o Brasil dá mais um passo rumo à vanguarda do desenvolvimento social e econômico.

Recém-chegada das férias, nas quais viajou em lua-de-mel, Dilma esteve acompanhada da primeira-dama Edmeire da Silva, durante toda a cerimônia.

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05/09/2012
by Fabiano Camilo
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Diferença poluidora

Aproximemos dois discursos veiculados em jornais de duas sociedades culturalmente muito diferentes e espacialmente distantes. No Brasil, no dia 3 de setembro, o Fórum Permanente Pernambucano Pró Vida (FPP-PV), que reúne “diversas entidades que defendem a vida e a família cristã”, publicou, no jornal Folha de Pernambuco, o anúncio de uma campanha intitulada “Pernambuco não te quer”. Entre as práticas consideradas intoleráveis no estado estavam a pedofilia, a exploração sexual de menores, a prostituição, o turismo sexual e o homossexualismo. No Irã, o jornal Mashregh News, veículo oficial da Guarda Revolucionária Iraniana, publicou um artigo em que acusava o governo sionista de Israel de espalhar a homossexualidade pelo mundo. A campanha brasileira é promovida por uma instituição religiosa cristã. O artigo iraniano apresenta a opinião de um órgão de um Estado teocrático islâmico. Nas duas situações, nos deparamos com uma homofobia de conteúdo religioso. Todavia, há um segundo elemento em comum, menos evidente e mais relevante.

A campanha e o artigo são ridículos, risíveis. Entretanto, não são poucos aqueles que os consideram verdadeiros – no Irã, provavelmente a quase totalidade da população. De acordo com o presidente do Fórum Pró Vida, o homossexualismo produz turismo sexual. Para o Mashregh News, Israel produz homossexuais. O que se manifesta nesses discursos é o medo da proliferação incontrolada da diferença poluidora, da disseminação contaminadora. Gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais podem ser pessoas que padecem de uma doença, mas, concomitantemente, são os agentes transmissores da doença ou, talvez, a própria doença, que se não for, se não curada, ao menos controlada, se espalhará infectando todo o corpo social. A repulsa e o medo em face das homossexualidades, das bissexualidades e das transgeneridades não consistem tão-somente em reações fóbicas à diferença, mas também em reações angustiadas à sensação, não necessariamente evidente para quem a experimenta, de que a diferença pode conspurcar o eu e degenerar a coletividade. Seja mediante a conversão religiosa ou a cura terapêutica, no Brasil, seja mediante castigos físicos ou a pena de morte, no Irã, o objetivo da reação é sempre o mesmo: exterminar o mal.

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28/08/2012
by Fabiano Camilo
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Mundos mortos, mundos que morrem

Criança pequena, viajei a Dourados. Conservo pouquíssimas e fragmentárias imagens daqueles dias. Ficamos na casa de uma tia, de quem eu passaria a gostar muito, segunda irmã do meu pai. Estão ambos mortos. Podemos sentir a passagem do tempo quando percebemos que o número de parentes e amigos perdidos não é pequeno e quando constatamos que, dentre os vivos, há mais de um para quem não restam muitos anos – supondo-se, como sempre supomos, que morrerão de velhice.

Hoje, uma imagem antiga, desfocada e esmaecida, que eu não estava tentando recordar, aflorou em minha mente. Lembro-me de ter ficado impressionado com os índios que via pelas ruas de Dourados, pobres ou miseráveis. A imagem de um desses índios, mendigando. Eu perguntando a minha tia, outra irmã do meu pai. Uma pergunta sobre os índios, da qual não me recordo, como tampouco me recordo da resposta. Uma pergunta de estranhamento, de menino impressionado. Por anos, a representação dos índios em meu imaginário correspondeu à lembrança daqueles índios andrajosos que vira, próximos de mim e, ao mesmo tempo, distantes. Índios que não pareciam índios. Todavia, índios que viviam em suas ‘aldeias’, que não passavam necessidades, de aspecto não abatido – índios que pareciam índios –, eram imagens em revistas ou na televisão. Longínquos, inacessíveis – e exóticos.

Eu era uma criança que não conseguia se relacionar bem com a diferença. Suspeito que devido ao fato de que sentia em mim mesmo uma diferença que não suportava e da qual desejava me libertar. (Ou então, para não ser condescendente, talvez eu simplesmente tenha me tornado, a partir de uma determinada idade, uma criança dotada de pouca empatia.) Os índios maltrapilhos me causavam repulsa – não no início, depois. Todos os índios que vi em Dourados e de que não me lembro talvez estejam mortos. Nunca refleti acerca do destino deles, em particular. O mundo em que tinham vivido ou em que seus ancestrais viveram certamente estava morto, naquele tempo. Colonização e progresso – palavras que eu ainda não conhecia.

Quem quer ser índio, na infância? Ser, não brincar de ou se fantasiar de. Os meninos brincam fingindo que são índios – mas não índios brasileiros, cujas etnias nem sequer conhecem, índios americanos, perseguidos por caubóis. Colonização do imaginário. Meninos e meninas se fantasiam de índios no carnaval. Não parece absurdo a pais e mães fantasiarem seus filhos – ou a si mesmos – de índios, muito embora não lhes ocorra fantasiá-los de argentinos, japoneses ou suecos. Fantasiar-se de uma identidade pertencente a outra etnia, região ou nacionalidade é uma performatização de uma caricatura, feixe de signos que asseguram uma identificação imediata, porque considerados, em alguma medida, constitutivos da essência do exótico que é fantasiado.

Índios vivem na floresta, em perfeita comunhão com a natureza, uma união sagrada. Índios são ingênuos, puros, avatares de uma inocência que os civilizados perderam. Representações infantilizantes, tão infantilizadas quanto as representações das crianças que correm e pulam gritando ô ô ô ô. Índios são ignorantes, atrasados, não compreendem as necessidades da civilização, os imperativos do progresso. Desprezo civilizado pelo primitivismo dos índios, que vivem aprisionados por suas superstições, e incapacidade do civilizado de compreender a irracionalidade da crença coletivamente compartilhada na inelutabilidade do progresso – considerado tão inelutável quanto o foi, no passado, o Juízo Final –, contra a qual toda resistência é vã.

Quando os cem quilômetros da Volta Grande do Xingu tiverem secado, um meio ambiente terá sido destruído e um mundo terá morrido. Diversidade natural e diversidade cultural não possuem utilidade instrumental para o capital. Os índios poderão finalmente se tornar trabalhadores na civilizada sociedade capitalista tardia ou representar o espetáculo turístico do teatro das crenças e dos rituais das sociedades primitivas. Em última instância, poderão viver nas periferias miseráveis das cidades ou viver nas ruas, mendigando – como os repulsivos índios de Dourados, na minha infância.

Podemos perceber que nossa sociedade progride quando constatamos que o número de outras sociedades no mesmo espaço geográfico, em territórios distantes conquistados ou em territórios fronteiriços está diminuindo. A redução da diversidade natural e da diversidade cultural, a barbárie, a expansão de um mundo unificado e unívoco são sempre indícios seguros do progresso.

Os índios não são apenas entraves práticos, são também entraves simbólicos. Ao menos aqueles que conseguiram preservar, sem cessar de recriá-las, culturas que consistem, por si, em uma refutação do nosso ideal civilizacional totalitário, fundado na antidiversidade natural e cultural.

Contemplo as imagens da floresta onde nunca estive. Temo que esteja sendo destruída e que os mundos que nela existem estejam morrendo.

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21/07/2012
by Fabiano Camilo
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Vidas que precisam ser curadas

O escrevinhamento abaixo foi publicado originalmente, sob o mesmo título, no Amálgama, em 16 de julho de 2012.

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Há cerca de dez anos, durante uma festa de Ano Novo, dois amigos e eu nos envolvemos, não me recordo como, em uma tensa conversa sobre homossexualidade, com o na época namorado da anfitriã. Maneira melhor de nós três nos divertirmos aquela noite não havia, claro. A certa altura, a paciência dos meus amigos se esgotou e eles se retiraram. Eu, idiota teimoso, me mantive firme. Em determinado momento, o diálogo se converteu em um monólogo em que as frases invariavelmente começavam com o sintagma: “[Vocês] os gays”, “[Vocês] os gays”, “[Vocês] os gays”. Meu ânimo para contestar se extinguira, porque conversávamos havia bastante tempo e porque eu percebera que não tinha meios para rebater as afirmações do meu interlocutor. Não se baseavam nem na experiência nem no conhecimento, eram uma crença baseada em um imaginário heteronormativo e homofóbico. Ele acreditava que os homossexuais masculinos eram exatamente como ele os representava. Eram, por exemplo, pessoas mais cruéis do que as pessoas heterossexuais – mais cruéis do que as mulheres heterossexuais, inclusive. No seu imaginário, não existia os homens homossexuais, mas homossexual masculino, que pode ser definido como um personagem fictício, constituído de uma essência que se mantém estável do nascimento à morte e que se expressa no conjunto das suas emoções, dos seus pensamentos, das suas expectativas e das suas ações. Todos os homens gays são compostos por essa essência, nenhum deles é um indivíduo, com uma trajetória de vida e características particulares, cada um deles é um homossexual.

Ele não era religioso, o ex-namorado da minha amiga. Relato a história porque, formalmente, a crença dele é idêntica à crença dos cristãos fundamentalistas que apregoam que a homo e a bissexualidades, o travestismo e a transexualidade são doenças que devem ser curadas. Todos os gays, todas as lésbicas, todos os homens bissexuais, todas as mulheres bissexuais, todas as travestis, todos os homens transexuais e todas as mulheres transexuais estão doentes. A diferença é que, na perspectiva religiosa fundamentalista, a doença é uma falsa essência, uma essência que se justapõe à verdadeira, tornando-a enferma e controlando-a, passando, assim, a constituir uma segunda essência, que faz gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais serem como são e agir como agem – mas uma essência doentia que pode ser tratada.

Há duas contradições na crença cristã contemporânea de que a homo e a bissexualidades e a transgeneridade são doenças.

(1) Não há, na Bíblia, nenhum versículo que proclame ou, ao menos, sugira que são doenças. Trata-se de uma crença que não possui fundamento no livro sagrado do cristianismo. Quem o diz não sou eu, mas o renomado e insuspeito filósofo Olavo de Carvalho. As próprias identidades homo e bissexual, que não existiam na sociedade hebraica antiga, não configuram pecados. O que as leis transmitidas por Deus a Moisés condenam são práticas: “Não te deitarás com um homem como se deita com uma mulher. É uma abominação” (Bíblia, A. T. Levítico, 18:22). Caso permaneça vigente a interdição às terapias de reversão de sexualidades patológicas, exarada pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP), na Resolução n. 1/99, os cristãos fundamentalistas inconformados poderiam, como último recurso, tentar restaurar, com base nos direitos constitucionais à liberdade de crença e ao livre exercício dos cultos religiosos (Constituição da República Federativa do Brasil, Art. 5º, VI), a arcaica penalidade divina prescrita aos praticantes de atos homoeróticos: “O homem que se deita com outro homem como se fosse uma mulher, ambos cometeram uma abominação; deverão morrer, e o seu sangue cairá sobre eles” (Bíblia, A. T. Levítico, 20:13).

(2) Uma doença não pode ser, concomitantemente, um pecado. Todo pecado, mesmo se na forma de um pensamento ou de uma omissão, é uma ação. O homem é pecador: ele peca, ele comete pecados, mas ele não sofre pecados, sofre (de arrependimento ou dos castigos infligidos por Deus) pelos pecados cometidos. Para pecar, o homem precisa agir. A doença, contrariamente, não é uma ação. O homem adoece, ou seja, torna-se doente: ele está doente, ele tem uma doença, ele sofre uma doença ou de doença. A doença é uma condição do corpo, um estado que pode ser transitório ou contínuo. O homem pode persistir na prática de um ato pecaminoso, mas ele não tem um pecado, ele comete reiteradamente um pecado. Uma doença pode ser uma punição divina por um pecado – como pode decorrer também de uma maldição ou de uma possessão demoníaca –, uma consequência de um ato pecaminoso, mas uma doença (condição, estado), supondo-se que a homo e a bissexualidades e a transgeneridade sejam patologias, conforme prega o cristianismo fundamentalista e a psicologia cristã, não pode ser, simultaneamente, um pecado. Em consonância com o texto bíblico, a doutrina católica não concebe a homo e a bissexualidades (condições, estados) como pecados, o pecado é o ato homoerótico, prática sexual contra natura.1 Se não pode uma doença ser um pecado, tampouco pode ser a causa de um pecado. Uma doença não conduz a uma ação, apenas uma decisão pode conduzir a uma ação. Se pecar é agir, para pecar o homem precisa decidir, consciente ou inconscientemente, agir. A causa de um pecado é sempre uma decisão. A tentação incita o homem a pecar, mas não o obriga a pecar. Uma doença, mantendo-se a suposição de que a homo e a bissexualidades e a transgeneridade sejam patologias, pode tentar o homem, tornando-o doente de desejo, porém ele deve resistir à tentação. Se peca, é porque, não conseguindo resistir, decidiu pecar.

A via proposta pela autodenominada psicologia cristã ao paciente é um subterfúgio. Ao sobrepor o “conhecimento científico” ao dogma, as religiões terminam por atestar o próprio fracasso. A fé, por si, não opera o milagre da retificação do desejo, não é suficiente para garantir que o cristão consiga se conservar obediente às leis divinas. Assim, a ciência psicológica cristã, que prova que a homo e a bissexualidades e a transgeneridade são doenças, vem em amparo às religiões, para confirmar a verdade da crença. Ao invés de o cristão confrontar somente com a força da fé o terrível desejo que atormenta sua alma, um caminho complementar e menos difícil de ser percorrido lhe é ofertado, o tratamento para a doença da qual padece e que é responsável por ele pecar. O desejo pecaminoso é o sintoma. As possíveis incompatibilidades entre o conhecimento científico e o dogma religioso são facilmente superadas porque não há, com efeito, nenhuma incompatibilidade. O conhecimento produzido pela psicologia cristã não passa de um pseudoconhecimento, um empreendimento que sempre confirma a crença, independentemente dos fatos empíricos.

Na audiência pública realizada na Câmara dos Deputados, no Dia Internacional do Orgulho LGBT, 28 de junho, para discutir o Projeto de Decreto Legislativo n. 234/11, que susta a aplicação de dois dispositivos da Resolução n. 1/99 do CFP, a psicóloga cristã Marisa Lobo declarou: “A ciência ainda não tem entendimento do que é a homossexualidade. Não tem pesquisa que se comprove que a homossexualidade é genética”. Julgo que não devemos nos preocupar em demonstrar que a ciência logrou produzir um entendimento do que seja a homossexualidade. Essa empresa apenas nos mantém aprisionados no círculo dos pressupostos equivocados que informam a psicologia cristã. Os desejos homo e bieróticos não precisam ser entendidos, tampouco o travestismo e a transexualidade. A convicção de que essas subjetivações e experiências demandam uma explicação (científica) pressupõe, fatalmente, que a heterossexualidade e a cisgeneridade corporifiquem subjetivações e experiências naturais, normais, que carecem de ser explicadas, em relação às quais todas as demais, conquanto possam não ser classificadas como doenças, transtornos, distúrbios ou perversões, consistem em afastamentos, desvios, excecionalidades. Se é necessário compreender a homo e a bissexualidades, o travestismo e a transexualidade, então é forçoso compreender também a heterossexualidade e a cisgeneridade.

Nas palavras de Marisa Lobo, interessa apreender, antes de tudo, o significado do não enunciado, que desautoriza sua própria enunciação: “A ciência ainda não tem entendimento do que é a homossexualidade”. Poderíamos nos limitar a observar, ironicamente, que a ciência não tem entendimento, mas a célebre psicóloga cristã e seus parceiros no crime pares não têm nenhuma dúvida. Podemos avançar, porém. Embora a psicologia cristã não seja reconhecida por nenhuma vertente da psicologia, tampouco por outras áreas das humanidades ou pela medicina, seus adeptos afirmam com veemência que aquilo que fazem é ciência.2 Por conseguinte, para Marisa Lobo, seu pensar e seu fazer são científicos, estão de fato e de direito no campo da ciência. Se a ciência não tem entendimento do que seja a homossexualidade, então a tese da psicóloga cristã, que se pretende científica, também não pode ser considerada um entendimento, não sendo mais verossímil e confiável do que as demais existentes – as quais, contudo, em conjunto ofereceriam, ao menos, a segurança de entendimento conferida pela superioridade numérica, a segurança de um consenso mínimo. Imaginemos uma situação onde nenhuma vertente de uma ciência produz um entendimento acerca de uma questão, o que equivale à própria área não produzir um entendimento. Se uma das vertentes atesta que um fenômeno é uma doença, enquanto as outras nove sustentam o contrário, é dispensável possuir conhecimento científico especializado, somente bom senso, para decidir qual, dentre as dez, provavelmente é a menos verossímil e confiável. Inconscientemente, ao tentar conferir à sua tese legitimidade – tratava-se não de uma discussão científica, mas de uma discussão exclusivamente política – e potencial de convencimento, a psicóloga a refutou, nos seus próprios termos.

A psicologia cristã e os congressistas cristãos fundamentalistas contestam a autoridade institucional do CFP, condenando o arbítrio e o autoritarismo da Resolução n. 1/99, que exorbitou do poder regulamentar da entidade administrativa (Lei n. 5.766/71, Art. 1º, Art. 6º, b, c, d, e). Consequentemente, surge para o Congresso Nacional o encargo de sustar os dispositivos inconstitucionais (Art. 3º-4º) do ato normativo, em obediência à Constituição Federal (CF, Art. 49, V). Na justificativa do PDC n. 234/11, o deputado federal João Campos (PSDB-GO) argumenta que o CFP extrapolou seu poder regulamentar, estabelecendo obrigações e restringido direitos – o direito do psicólogo de trabalhar e o direito de todo indivíduo de receber orientação profissional –, mediante um ato administrativo. A autarquia usurpou portanto a competência do Poder Legislativo, “com graves implicações no plano jurídico-constitucional”, ao ilegitimamente inovar a ordem jurídica, em desrespeito ao princípio que consigna que apenas a lei formal pode criar direitos e impor obrigações, positivas ou negativas (CF, Art. 5º, II).

Seria certamente muito proveitosos os resultados de uma pesquisa que se dispusesse a inventariar quantos projetos de decreto legislativo foram apresentados, desde a promulgação da Constituição de 1988, com o objetivo de sustar resoluções que teriam restringido “o trabalho dos profissionais e o direito da pessoa de receber orientação profissional”, expedidas por conselhos federais fiscalizadores de profissões regulamentadas. A iniciativa toda assume a forma de um simulacro de defesa de uma ordem jurídica gravemente ameaçada. Similarmente, contra o Projeto de Lei da Câmara n. 122/06, que criminaliza o preconceito e a discriminação de gênero e de orientação sexual, a forma assumida é a da defesa dos direitos à livre manifestação do pensamento (CF, Art. 5º, IV), à liberdade de atividade intelectual e de comunicação (CF, Art. 5º, IX) e à inviolabilidade da liberdade de crença (CF, Art. 5º, VI), implicitamente elevados ao status de direitos absolutos, em detrimento da hermenêutica constitucional.

A dificuldade enfrentada ao se tentar refutar uma crença é o fato de que tende a permanecer irrefutável, aos olhos de quem crê. Uma eventualidade, uma exceção, um argumento ad hoc sempre podem ser alegados para que se prove que a crença se conserva verdadeira. Em 1974, a Associação Americana de Psicologia (APA) retirou o homossexualismo da lista de doenças mentais do Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais, reclassificando-o como distúrbio de orientação sexual. Em 1980, o homossexualismo foi retirado em definitivo da obra.3 No Brasil, em 1985, em plena epidemia de AIDS e catorze anos antes do CFP, o Conselho Federal de Medicina (CFM) concluiu que o homossexualismo não é um desvio sexual. Em 1993, o homossexualismo foi excluído da relação de transtornos mentais e de comportamento da Classificação Internacional de Doenças (CID-10), da Organização Mundial da Saúde (OMS). A Carta sobre os Direitos em Matéria de Sexualidade e de Reprodução, da Federação Internacional de Planejamento Familiar (IPPF), publicada em 1995 e adotada em versão reduzida pelo Ministério da Saúde, propõe que sejam reconhecidos como direitos sexuais e reprodutivos:

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Toda a pessoa é livre de poder desfrutar e de controlar a sua vida sexual e reprodutiva, no direito pelo respeito dos outros.

Toda a pessoa tem direito de não estar sujeita ao assédio sexual, ao medo, vergonha, culpa ou outros factores psicológicos que prejudiquem o seu relacionamento sexual ou resposta sexual.

Ninguém deve ser discriminado em relação à sua vida sexual e reprodutiva e no acesso aos cuidados de saúde.

Nenhuma pessoa deve ser discriminada, ou vítima de violência, nomeadamente no quadro da vida sexual e reprodutiva.

Todas as pessoas têm o direito de exprimir a sua orientação sexual, sempre respeitando o bem estar e o direito dos outros.

Toda a pessoa tem direito à liberdade de pensamento e de expressão relativa à sua vida sexual e reprodutiva.

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Em 2009, um relatório da APA, redigido por uma comissão especial, que revisou a literatura acadêmica acerca do tema disponível nos arquivos da entidade, concluiu que inexistem evidências de que a orientação sexual possa ser alterada por terapia.

Proposições como estas, não importando a competência e a reputação dos órgãos que as emitam, não são refutadas por meio de argumentação e demonstração científicas, muito embora a psicologia cristã reitere obstinadamente ser uma ciência, mas rechaçadas com a acusação de que são decisões políticas, anticientíficas portanto. Previamente a todo empenho para provar sua verossimilhança e confiabilidade, talvez pudéssemos reformular nossos pressupostos, asseverando que são, sim, discursos políticos – discurso políticos que auferem sua legitimidade e potencial de convencimento do conhecimento científico, competindo a quem os contesta refutar as teses em que se embasam. Possuem dois objetivos tais proposições. (1) Certificar que, durante muito tempo, prevaleceram teses falaciosas sobre sexualidade e gênero, as quais informaram as clínicas médica e psicológica, bem como políticas públicas, promovendo, direta ou indiretamente, discriminações, segregações, opressões e violências (físicas e psíquicas). Funcionam, pois, como (precárias) reparações simbólicas. (2) Estimular ações concretas que contribuam para a consecução de mudanças no mundo social, visando à erradicação ou, no mínimo, à profunda diminuição da homofobia, da transfobia e do sexismo. Essa dimensão política perpassa também todos os estudos que, tanto no campo das humanidades como no das exatas, se esforçam, em alguma medida, para contribuir para a despatologização da homo e da bissexualidades e da transgeneridade. Evidenciá-la e assumi-la possibilita denunciar mais eficazmente a crença religiosa e os interesses políticos espúrios que se dissimulam como conhecimento científico. Enquanto o CFP estabelece normas de atuação profissional, as religiões cristãs fundamentalistas e a psicologia cristã se dedicam à preservação e à instituição de normas que regulem os valores, os desejos, os afetos e os relacionamentos, ou seja, ao extermínio das alteridades e ao controle das formas de vida. Se meu discurso está situado em uma posição onde é atravessado por relações de poder, não sendo neutro, imparcial e desinteressado, o discurso do meu adversário político também está. Ao invés de mimetizarmos a tática dos nossos opositores – meu discurso é científico, seu discurso é político –, em um debate acusatório em que argumento e contra-argumento são idênticos, a assunção da dimensão política permite que a um discurso religioso que simula ser ciência contraponhamos um discurso político baseado no conhecimento científico.

A contestação recorrente à tese pseudocientífica de que a homo e a bissexualidades e a transgeneridade são doenças consiste em argumentar, com vitimismo, que ninguém opta por sua orientação sexual e que ninguém escolhe ter uma subjetividade em desacordo com o sexo biológico. Destarte, não seria possível alterar aquilo que é uma determinação natural, pressupõe-se. Entretanto, Marisa Lobo não está errada quando afirma que não está cientificamente comprovado que a homossexualidade seja determinada pela herança genética. A sexualidade e o gênero de um indivíduo não são meras determinações de informações contidas nos genes, pelo simples motivo de que um indivíduo não é um código genético. As relações dos genes com a sexualidade e o gênero, quaisquer que sejam, não são o único fator relacional em atuação. O ser humano se torna um indivíduo em um processo de socialização em que adquire cultura. No longo passado da humanidade, a sexualidade e a generidade foram experiências culturalmente diversificadas, como o são também no presente. Experiências diversificadas tanto interculturalmente, como também intraculturalmente. O determinismo biológico permanece sem conseguir propor uma explicação satisfatória, capaz de conciliar a orientação sexual e o gênero determinados geneticamente com o fato da variedade de significações culturais existentes, no passado e no presente, para as práticas sexuais e as identidades de gênero.

Uma interpretação da sexualidade e da generidade humanas como fenômenos instáveis, fluidos, moventes não significa validar a tese da psicologia cristã, pelo contrário. A psicologia cristã não defende e jamais defendeu que seja possível mudar a orientação sexual e o gênero. Toda declaração sustentando que seja é falsa. Não ocorre efetivamente uma mudança – porque existe apenas uma orientação sexual –, mas tão-somente a cura de uma doença, a passagem de um estado mórbido para um estado saudável. Se a psicologia cristã acreditasse que é possível mudar tanto a sexualidade, de homo ou biorientada para heteorientada, como o gênero, de transgênero para cisgênero, seria obrigada a admitir que o reverso também é possível. Todavia, esta hipótese não é admissível, porque desmente a crença que fundamenta a prática pseudoterapêutica.

O abandono da ideia da sexualidade e do gênero como fenômenos estáveis e fixos, como determinações que condicionam o indivíduo do nascimento à morte, é um desdobramento da passagem de uma ideia de “liberdade como liberdade de ser o que se é” para uma ideia de “liberdade como liberdade de ser o que se quiser ser”. “A liberdade de ser o que se é” é a liberdade de ser aquilo que se determinou que se deve ser.

Não seria legítima a vontade de um indivíduo de modificar sua orientação sexual ou a vontade de um indivíduo de que sua subjetividade esteja em acordo com seu sexo biológico? Sim, indubitavelmente. Contudo, é necessário perguntar: por que alguém iria querer mudar sua orientação sexual ou iria querer que sua subjetividade estivesse em conformidade com seu sexo biológico? No Ocidente, todos os indivíduos somos submetidos a um processo de socialização que tem por finalidade transformar os corpos em homens heterossexuais e mulheres heterossexuais, processo que, no senso comum, é concebido como o conjunto das ações que constituem o aprendizado imprescindível das emoções, das representações, dos valores, dos interesses e das práticas consubstancialmente específicos de cada um dos dois gêneros, incluído o aprendizado fundamental, o da forma de manifestação natural do desejo, a orientação para o gênero oposto. Há um evidente paradoxo. Se o heteroerotismo é a disposição natural do desejo, não deveria ser indispensável que todo indivíduo fosse submetido, desde o nascimento, a um totalizante, rígido e, por vezes, violento processo de subjetivação desejante, pois o desejo pelo gênero oposto afloraria naturalmente, de uma maneira ou de outra, em determinado momento. Se todo indivíduo tem um sexo natural, ninguém deveria ser submetido, desde o nascimento, a um totalizante, rígido e, por vezes, violento processo de aprendizado da masculinidade ou da feminilidade, para que sua subjetividade esteja de acordo com o sexo que lhe foi destinado ao nascer, seu sexo biológico. Ninguém sofre porque seu desejo é homo ou bierótico, mas porque vive em uma sociedade heteronormativa e homofóbica. Ninguém sofre porque é travesti ou transexual, mas porque sua subjetividade está em desacordo com o sexo que a sociedade lhe determina compulsoriamente como sendo sua natureza biológica.

Na audiência pública na Câmara, o deputado João Campos aduziu a seguinte alegação para justificar o PDC n. 234/11: “Um dos princípios básicos da ética médica é a autonomia do paciente. É como se o Conselho Federal de Psicologia considerasse o homossexual um ser menor, incapaz de autodeterminação”. Nessa fala, entrecruzam-se os três principais argumentos falaciosos do cristianismo fundamentalista: a sobredeterminação do individual sobre o social, a vontade soberana do indivíduo e os direitos absolutos. O indivíduo não tem um passado, o imaginário não o constitui como um sujeito (possível), ao circunscrevê-lo em posições de um estrutura de relações sociais e de poder interdependentes, temporalmente construída e, portanto, contingente. O indivíduo existe externamente a todo o social. O sofrimento que experimenta não tem de nenhum modo ligação com a sociedade onde vive. É exclusivamente parte de sua constituição. Não é um sofrimento tornado factível culturalmente. A vontade desse indivíduo associal sem passado deve sempre prevalecer. Seu direito absoluto se impõe sobre todo dever de responsabilidade médica e psicológica, mesmo se o sofrimento que possa estar experimentando estiver prejudicando sua cognição e sua volição. A relação entre o médico ou o psicólogo e o paciente degenera-se em uma relação contratual pecuniária, onde o paciente tem o direito de tudo exigir do profissional de saúde, que não sofre nenhuma restrição ética no exercício de sua atividade.

O PDC n. 234/11 é somente um de uma série de projetos legislativos apresentados nos últimos anos que possuem em comum a característica de afrontar o princípio constitucional da laicidade do Estado e os direitos individuais. É um indício o fato de que tenha sido proposto doze anos após a edição da Resolução n. 1/99 do CFP, por um deputado membro da bancada evangélica. Em novembro de 2011, o Ministério Público Federal (MPF), pela Procuradoria da República do Rio de Janeiro, impetrou uma ação civil pública requerendo à Justiça Federal que declare a inconstitucionalidade dos artigos 3º e 4º da Resolução n. 1/99. Sabe-se que um dos procuradores que assinaram a ação é evangélico. Entre outras proposições legislativas que atentam contra a laicidade estatal e os direitos individuais, pode-se citar: PL n. 478/07, PDC n. 52/2011, PDC n. 224/2011, PDC n. 312/2011, PDC n. 325/2011, PL n. 377/2011, PL n. 1.190/2011, PEC n. 164/2012, PDC n. 566/2012. Todas integram o processo de recrudescimento do conservadorismo religioso na sociedade brasileira, que ultrapassa as fronteiras dos templos religiosos e dos lares católicos e evangélicos, ramificando-se pelas instituições estatais, de onde seus agentes travam uma guerra espiritual para assegurar a imposição dos seus valores a toda a população.

PS: A ineficácia das terapias de reversão da sexualidade e do gênero, constatada, por exemplo, pela APA, não refutaria a ideia da sexualidade e da generidade humanas como fenômenos instáveis, fluidos, moventes? Não. Impor a alguém uma orientação sexual e um gênero, como se faz em nossa sociedade, com ou sem terapia, é muito diferente de se garantir ao indivíduo a liberdade de explorar sua orientação sexual e os gêneros, se quiser, quando quiser e sempre que quiser.

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1 Em rigor, a sodomia não é um ato sexual envolvendo dois ou mais homens. A sodomia é o sexo anal, classificado como prática contra natura, porque não reprodutiva. Portanto, a sodomia é um pecado se praticado tanto em um intercurso sexual homoerótico, como em um intercurso sexual heteroerótico.

2 Nada existe de análogo à absurda psicologia cristã no âmbito das outras áreas das humanidades que também se interessam pelos temas gênero e sexualidade. Inexiste uma sociologia cristã (do gênero e da sexualidade), uma antropologia cristã (do gênero e da sexualidade), uma história cristã (do gênero e da sexualidade).

3 A transgeneridade, definida como transtorno de identidade de gênero, continuou sendo classificada como patologia pelo Manual da APA.

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04/04/2012
by Fabiano Camilo
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Revelados os terríveis planos secretos para a instituição do Império Homossexual!

O documento abaixo foi encontrado na bolsa de uma travesti de nome Gabhryella Bharbharella Escarléthi on Fire, assassinada a lampadadas fluorescentes na Avenida Paulista. O texto confirma as piores suspeitas das autoridades religiosas e governamentais acerca da existência de uma conspiração glbt para a tomada do poder. Contudo, aparentemente, as suspeitas estavam em parte equivocadas e o objetivo almejado pelos grupos terroristas glbt’s não é o estabelecimento de uma ditadura gay, mas a instituição de um Império Homossexual, um Estado totalitário onde os heterossexuais não terão direitos reconhecidos.

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(Des)t.r.a.v.a.ndo

Terrorismo Rizomático Alucinante da Vanguarda Anal

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Irmãs Travestis,

os preparativos para a Revolução prosseguem conforme planejados. Vivemos a iminência da Grande Noite GLBT. Mais do que nunca é imperioso permanecermos unidas e firmes, bem como solidárias a nossos irmãos gays, nossas irmãs lésbicas, nossos irmãos e nossas irmãs bissexuais, nossos irmãos e nossas irmãs transexuais. Todas devemos permanecer a postos, prontas para morrer pela causa transcendente.

O Comando Supremo da Revolução determinou que a tomada do poder ocorrerá no dia 24 de dezembro de 2012. À parte o óbvio simbolismo da data, neste dia a população heterossexual estará alienada pelas festividades natalinas.

Na última reunião entre os dirigentes e as dirigentes dos grupos revolucionários, da qual participaram as dirigentes democraticamente eleitas do (Des)t.r.a.v.a.ndo, foram tomadas as seguintes decisões relativas a nova ordem homo-bi-trans-normativa:

1. toda a população heterossexual do Brasil será escravizada, tanto nacionais como estrangeiros;

2. os denominados heterossexuais simpatizantes receberão tratamento especial, devendo ser reduzidos apenas à condição de escravos domésticos;

3. a jornada de trabalho dos escravos domésticos não poderá ultrapassar 12 horas diárias, a de todos os demais escravos, exceto a dos sexuais, não poderá ultrapassar 18 horas diárias;

4. a jornada de trabalho dos escravos sexuais não poderá ultrapassar 8 horas diárias;

5. os escravos domésticos terão dois descansos anuais, um por semestre;

6. toda pessoa que praticar exclusivamente atos eróticos de natureza heterossexual será condenada à pena de morte por empalação;

7. todas as obras que contenham descrições ou cenas de ou que façam alusões a práticas eróticas de natureza exclusivamente heterossexual serão destruídas;

8. heterossexuais que se converterem à homossexualidade ou à bissexualidade, que se tornarem travestis ou que se submeterem à cirurgia de transgenitalização serão libertados;

9. escravos libertos que incorrerem na prática exclusiva de atos eróticos heterossexuais, ou seja, que tiverem fingido que abandonaram a heterossexualidade para obter a liberdade, serão condenados à pena prevista no item 6;

10. o sexo em locais públicos, em qualquer horário, será liberado;

11. as seguintes disciplinas serão obrigatórias para as crianças e os adolescentes que se identificarem como pertencentes ao gênero masculino: maquiagem, moda, balé, ginástica artística ou saltos ornamentais, chuca perfeita, criando e difundindo baphos, vida e obra das magníficas divas, etiqueta para banheirão e dark room;

12. as seguintes disciplinas serão obrigatórias para as crianças e os adolescentes que se identificarem como pertencentes ao gênero feminino: manicure para fins vaginais, futebol ou artes marciais, vida e obra das maravilhosas cantoras da MPB, manufatura de sapatos, direção de caminhões;

13. as crianças e os adolescentes travestis e transexuais poderão cursar livremente as disciplinas dos itens 11 e 12;

14. as seguintes disciplinas serão obrigatórias para as crianças e os adolescentes transgêneros: transitando entre os gêneros, fonoaudiologia transgênera, o maravilhoso mundo da cirurgia plástica, silicone seguro;

15. as seguintes disciplinas serão obrigatórias para as crianças e os adolescentes travestis: maquiagem avançada, penteados e perucas arrasadores, figurinos ousados, dominado o salto alto, batendo o cabelo, dublagem poderosa;

16. as crianças e os adolescentes transexuais femininos poderão cursar livremente as disciplinas do item 15;

17. a disciplina língua e literatura pajubá será obrigatória para todas as crianças e adolescentes;

18. o culto da Grande Deusa Madonna será celebrado todas as sextas-feiras, ao anoitecer;

19. grifes como Giorgio Armani, Gucci, Prada serão de uso exclusivo dos cidadãos e das cidadãs glbt’s. Heterossexuais que vestirem roupas ou utilizarem acessórios dessas marcas serão condenados a 5 anos de prisão.

Permaneçam confiantes, incansáveis e alertas, Irmãs! Não esmoreçam! Os terríveis séculos de dominação heterossexista finalmente se aproximam do fim. Da purpurina da destruição revolucionária um novo mundo nascerá.

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Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais do mundo, uni-vos!

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02/04/2012
by Fabiano Camilo
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O espelho do passado e as memórias em conflito

5ª Blogagem Coletiva Desarquivando o Brasil

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“Eu fiz isso”, diz minha memória. “Eu não posso ter feito isso”, diz meu orgulho, e permanece inflexível. Por fim – a memória cede.

Friedrich Nietzsche, Além do bem e do mal: prelúdio a uma filosofia do futuro.

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Faixa exibida por um avião, contratado pelo deputado federal
Jair Bolsonaro (PP-RJ), que circulou pelas praias da Zona Sul
e da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, no dia 31 de março

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Há uma dupla virtude nas efemérides promovidas por militares no aniversário de 48 anos do golpe de Estado que depôs o presidente João Goulart e instaurou a ditadura que permaneceu no poder por 21 anos. (1) Ao celebrar o que valorizam como as excelências e as glórias de um regime político de exceção, os militares terminam por demonstrar, ao revés, os vícios constitutivos do autoritarismo, evidenciando, em contrapartida, as virtudes da democracia, que lhes garante o direito de expressar publicamente suas opiniões e de se reunir coletivamente para festejar uma data à qual conferem uma significação especial e para enaltecer uma época que evocam com nostalgia. (2) Ao comemorar o aniversário do golpe, os militares demonstram também, novamente ao revés, a inexistência de um consenso social, de uma (re)conciliação nacional, evidenciando a persistência de interpretações divergentes e incompatíveis sobre o passado, de lembranças antagônicas e em disputa, de um conflito de memórias.

As comemorações provocaram reações de justa indignação, como a manifestação de repúdio, ocorrida no dia 29 de março, no Centro do Rio de Janeiro, contra os festejos que ocorriam no interior do Clube Militar. Não obstante, nenhum motivo há para surpresa ou espanto. As críticas que, de uma perspectiva política ou ética, podem e devem ser empreendidas não elidem o fato de que as comemorações são coerentes, uma decorrência inevitável do imaginário, dos valores e das convicções de parcela dos membros das forças armadas brasileiras. De quem se compromete, fervorosa e sinceramente, a morrer por seu país e cujas crenças não são abaladas em face ao horror da guerra, tudo o que se pode esperar, caso a necessidade e a oportunidade se efetivem, é que, de fato, se sacrifique. Analogamente, o que podemos esperar de quem justifica um golpe de Estado contra um regime democrático e elogia os tempos de uma ditadura militar? Certamente, não a celebração do fim da ditadura e a instituição da nova democracia – salvo se, à honestidade, preferirmos a hipocrisia. Não nos iludamos: não são apenas militares – não são poucos, portanto – os nostálgicos da ditadura, tampouco aqueles que, no Estado democrático de direito, defendem, por vezes não com um silêncio sorridente, medidas e práticas de exceção. Nossa tradição autoritária não pertence ao passado.

Os militares e os civis que se posicionam contrariamente a toda investigação dos crimes cometidos durante o regime ditatorial se esforçam para promover um estado de amnésia coletiva. A recusa de se olhar o espelho do passado consiste, concomitantemente, em uma recusa de se encarar o próprio presente. A imagem de um (tempo) outro nos obriga a enfrentar as relações que se conservam entre o passado e o presente, as possíveis continuidades perturbadoras, bem como a representação que construímos do nosso próprio tempo. A metáfora do ajuste de contas com o passado me parece equivocada, porque transmite uma impressão de definitividade, como se uma narrativa, memorialística ou histórica, pudesse estabelecer, definitivamente, uma verdade unívoca, como se o passado não fosse ressignificado por sucessivos presentes. Na medida em que nos encontramos sob o domínio de um passado que não passa e vivenciamos um conflito de memórias, as contas que temos a acertar são com nós mesmos. Não somos a sociedade brasileira da década de 1960 a de 1980, mas também não somos uma sociedade completamente diferente. Na imagem que miramos no espelho, vemos o outro e vemos também nosso reflexo. Vemos e simultaneamente tentamos não ver os horrores que, como sociedade, fomos capazes de perpetrar.

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Charge de Angeli

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Investigar o passado, precisar acontecimentos, enterrar os mortos são tarefas que independem dos (imprescindíveis) processos de julgamento dos responsáveis pelos crimes de terrorismo estatal, são tarefas que deveriam ter sido realizadas há muito tempo. Vergonhoso não é somente o passado, mas também este presente pusilânime. De tanto tentarmos esquecer, de tanto mentirmos para nós mesmos, corremos o risco de começarmos a acreditar nas falsas narrativas que construímos para não termos de suportar o peso opressivo do passado. A memória mutilada: sem lembranças, sem responsabilidades.

Os atos comemorativos de membros das forças armadas, saudados por parcela da sociedade civil, contribuem para a refutação da tese que eles próprios perseveram em defender. Não há nenhuma boa sociabilidade em perigo, nenhum conflito em vias de ser instaurado caso o passado comece a ser investigado e os criminosos sejam julgados. O conflito está, há muito, instaurado entre nós. Apenas nos falta descobrir que significação nossa memória logrará construir acerca do passado.

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Protesto em frente ao Clube Militar, no Rio de Janeiro,
contra a comemoração do 48º aniversário do Golpe de 64

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PS: esta é minha terceira participação na blogagem coletiva Desarquivando o Brasil. Os dois escrevinhamentos anteriores foram: “Necessidade de saber” e “A memória imobilizada”.

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20/03/2012
by Fabiano Camilo
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(Impossibilidade de) diálogo e radicalismo

Nesta época considerada pós-ideológica e pós-utópica, a radicalidade se tornou execrável. Somos continuamente alertados acerca da importância do diálogo e insistentemente instados a dialogar. Uma recusa ao diálogo é considerada uma posição radical e, no mínimo, um indício de uma possível tendência à violência. Se dialogarmos, dialogarmos, dialogarmos, todos os nossos problemas serão resolvidos.

Quem é acusado de se recusar ao diálogo e condenado como radical pode não ter tido suas motivações compreendidas, talvez nem sequer tenha havido uma tentativa de compreendê-las, ou então é acusado de não dialogar como uma tática de desautorização de sua fala e de deslegitimação de sua posição, sendo representado, consequentemente, como intransigente e autoritário. Com frequência, essa tática é eficazmente utilizada contra grupos minoritários e movimentos sociais. Não obstante, há também a possibilidade de que um indivíduo ou um grupo deliberadamente se recuse ao diálogo. Antes de tudo, é preciso entender as razões pelas quais ocorre uma recusa, na medida em que pode se revestir de duas formas: (1) a recusa que interdita o diálogo e (2) a recusa como protesto pela impossibilidade de se dialogar, como denúncia contra um falso diálogo, porque os participantes não se encontram em condições isonômicas de dialogismo; porque uma das partes, por causa do poder que possui, consegue assegurar sua permanência no diálogo, muito embora não respeite as regras instituídas que devem ser observadas por todos os participantes; ou porque uma das partes não está efetivamente dialogando, apenas fingindo dialogar, caso do atual governo federal, que finge dialogar com grupos minoritários e movimentos sociais. Nesses cenários, impõe-se as perguntas: é possível dialogar? como dialogar? para que tentar dialogar? vale à pena tentar dialogar?

Em decorrência de processos em curso e de acontecimentos recentes na sociedade brasileira, podemos perguntar: é possível dialogar com os militares da reserva que se insurgem contra a autoridade do ministro da Defesa, reprovam a (insatisfatória) Comissão da Verdade e defendem o regime ditatorial? é possível para os povos da floresta Amazônica dialogar com o governo federal, que, dominado pela ideologia desenvolvimentista, prossegue com o projeto de ecocídio do bioma amazônico? como acredita Vange Leonel, é possível para gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais dialogar com o governo federal, que reiteradamente demonstrou não estar preocupado com as necessidades e os direitos da população glbt?

Todavia, não se deve radicalizar, nos advertem. Aparentemente, há aqueles que preferem monologar com quem se conserva em estado de surdez, recusando-se a ouvi-los. A recusa a se ouvir o outro consiste em uma recusa a se reconhecer o outro – em sua existência, em sua dignidade, em seus direitos. Essa atitude não-dialógica difere daquela de quem se retira do diálogo por ser impossível dialogar; essa é a recusa ao diálogo que deve ser denunciada e condenada; essa é uma posição radical (intransigente, autoritária), cuja radicalidade, entretanto, tende a não ser reconhecida. Quem, atualmente, é mais radical do que os militares defensores da ditadura, os empreendedores do agronegócio, os cristãos fundamentalistas?

Em determinadas circunstâncias, a radicalidade não é uma opção, mas uma imposição. A recusa ao diálogo, contudo, não significa necessariamente recusa a todo diálogo – tampouco uma opção pela violência –, mas uma recusa a dialogar, quando não há possibilidade de diálogo, com um indivíduo, um grupo, uma instituição.

Julgo desnecessário acumular exemplos da inaptidão do governo Dilma Rousseff para o diálogo. Encerro com apenas um, o qual, para mim, compreende uma questão fundamental: em um momento em que a continuidade da vida e a existência da humanidade estão ameaçadas, devido à profundidade e à extensão da destruição ambiental, me parece que nos resta somente a ação radical contra o governo federal, para o qual o meio-ambiente e os direitos socioambientais são absolutamente irrelevantes e que, portanto, ao fingir dialogar, na prática se recusa a dialogar.

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